sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A Cantoria

Ontem, como já aqui referira em momento oportuno, dediquei-me à causa Cork Simon Community por uma ou duas horas, cantando com um grupo canções de Natal na rua. Peguei na guitarra de Coimbra e fui improvisando umas melodias tentando não fazer muito má figura. Mas, neste meu objectivo de ser sossegadamente discreto, eis que aparecem duas peças daquelas que me deixaram ficar discreto, é verdade, mas nada sossegado.

A primeira, um mendigo que se dizia pertencente ao movimento, pedia-nos uns trocos à descarada. A nós, que estávamos a pedir trocos que provavelmente lhe seriam destinados. O homem estava a ser bastante incómodo para com todos, principalmente os que seguravam os potes das ofertas. Daí que um senhor voluntarioso de fora do grupo decide tomar parte da situação e pega no mendigo pelos colarinhos. Muitos de nós suspiraram de alívio face ao afastamento de tamanho maçador. No entanto, convenhamos que, quando mirámos de soslaio o senhor voluntarioso a imobilizar violentamente o pobre mendigo contra o chão, desejáramos que afinal ele ainda ali estivesse a chatear. Continuámos a tocar e a cantar, tentando não expressar demasiado o nosso choque.

O coro sentiu-se que nem peixe em água. Cantou e sentiu-se confortável o suficiente para começar a cantar sem esperar pelo tom dos instrumentos. Os instrumentistas, esses sim, estavam confusos com tudo aquilo e eram claramente o elo mais fraco. Se uns continuavam a tocar no tom que tinha sido acordado, já outros tentavam apanhá-lo a partir da melodia que pairava. Nessa altura, às cantadeiras polacas, irlandesas, checas e brasileiras, já só lhes faltava encontrarem parceiro para dançar. Batiam palmas e tocavam pandeireta enquanto sopravam nas flautas umas notas quaisquer. Outros havia ainda que arrumavam o instrumento na sacola, desculpavam-se da garganta e do frio e iam embora. A uma dada altura, finalmente, os instrumentistas acertaram com o tom. Tudo estava a correr bem e a musiquinha era mesmo bonita.

Mas apareceu a segunda peça. Ninguém diria nada da menina dos seus 20 anos, bem vestida e de cara alegre. Coloca-se exactamente ao meu lado, agindo como se pertencesse ao grupo há mais tempo do que nós, e começa a cantar em alta voz. Mas que voz! Mais alta do que qualquer uma das outras cantoras empenhadas. Mas esta voz não era normal. Tinha o cunho de deixar toda a gente a olhar para a personagem de cuja boca saía. Incrível e perfeitamente desafinada, mas tão perfeitamente desafinada que, após segundos de caos e confusão na minha cabeça e nos meus ouvidos, dei com toda a gente na rua a olhar para ela com cara de quem se pergunta "onde é que esta tipa estacionou a nave?" Ficou mais do que visto que era ela a estrela, e algumas das nossas cantadeiras invejosas acabaram por sugerir que atravessássemos a rua. Claro, toda a gente concordou, mas a estrela da companhia também decidiu acompanhar-nos. Ao fim de apenas 5 minutos é um dos nossos que acaba por pegar-lhe no pescoço e afastá-la dali. E ela bateu-se para poder ser readmitida durante vários minutos. Conseguiria uma segunda oportunidade se o frio e o cansaço não nos vencesse.

Fui para casa com a sensação de dever cumprido. Hoje já me sondaram para ver se eu faria mais destas. E eu, reticente... we probably need more than one rehearsal. Mais tarde recebi um email com as contas finais da acção de caridade: alguns 350€ em menos de duas horas. Bolas! Qualquer dia pego num bêbedo crónico e numa voz de rouxinol daquelas, perco o amor aos meus ouvidos e faço-me músico de rua profissional!

Sem comentários: